terça-feira, 1 de julho de 2008

De amarga basta a Guinnes

Texto de Ruth de Aquino, extraído de Viagem e Turismo

Com mil pubs, um povo jovem e muita criatividade, Dublin é a prova de que os irlandeses sabem curtir a vida

Um caso de amor me levou a Dublin. Ela é preta, encorpada, deliciosa, e tem 250 anos. A Guinness é uma cerveja stout (forte), e nasceu na Irlanda. Não tem nada a ver com o chope brasileiro, e desperta sentimentos extremos. É a principal atração turística de uma cidade de aproximadamente mil pubs. A fábrica tem um tour concorridíssimo, e produz 4 milhões de pints por dia, metade para exportação. Do Gravity, um bar circular envidraçado e lotado, no andar mais alto da Guinness Storehouse, promete-se a melhor vista panorâmica de Dublin, 360 graus. Ali, onde o ingresso dá direito a uma pint (568 mililitros) de graça, a vista é o menos importante, porque a Irlanda é uma terra de nuvens. Essa ilha ao norte da “outra”, a Inglaterra, costuma ser chuvosa, ventosa e sombria. De cima, avistamos chaminés, a arquitetura georgiana do século 18, feita de tijolo e bay windows, catedrais suntuosas do século 12, o Rio Liffey, que divide a cidade em norte e sul, e prédios modernos que mostram uma outra Irlanda. Hoje, o país é a sede européia do Google.

Dublin vem do irlandês dubh linn, ou “piscina negra”. Os cartazes estão sempre escritos em duas línguas, o inglês e o gaélico (”táxi” é tacsaí). Esse é um dos encantos da Irlanda: a tradição misturada a uma prole ilustre de rebeldes, com e sem causa. Os ex-malditos Oscar Wilde e Francis Bacon sofreram por ser homossexuais. Músicos como Bono e seu U2 nasceram numa escola. A vocalista Sinéad O’Connor começou aos 14 anos e era garçonete no The Bad Ass Cafe. Um roqueiro punk acabou transformado em paladino da Etiópia, Bob Geldof. Dublin produziu prêmios Nobel de Literatura, como Bernard Shaw, Samuel Beckett e W.B. Yeats. As ruas de pedra, os bares e as casas ao sul do rio são cenário de um clássico mundial, Ulisses, de James Joyce, publicado em 1922, quando vivia em Paris. O vampiro-mor, Drácula, também foi gerado ali, por Bram Stoker. Outro escritor irlandês foi Jonathan Swift, que fez o mundo viajar com Gulliver.

Essa terra remota só ficou independente há meio século, em 1948. A Irlanda foi invadida por celtas, vikings e normandos, enfrentou pestes, fome, massacres e uma guerra civil na resistência à Grã-Bretanha. Tem personalidade forte. Ao contrário dos ingleses, adotou o euro, é católica, seu padroeiro é St. Patrick. Proíbe o fumo em todos os bares, cafés, pubs e espaços públicos desde março do ano passado. Em vez de críquete, joga um “futebol gaélico” que desperta brigas e paixões - uma mistura de futebol brasileiro, americano e rúgbi.

Basta checar a previsão meteorológica de Dublin para notar outra curiosidade: há uma dezena de nomes para chuva na Irlanda - light showers, heavy rain, storm, drizzle são alguns, e variam de acordo com a intensidade. Dublin tem apenas 100 dias sem céu nublado por ano. Logo à entrada do escritório de turismo da cidade, vários guarda-chuvas à venda. E mesmo assim o país recebe por ano 3,7 milhões de turistas estrangeiros (o Brasil recebeu 4,7 milhões em 2004, embora a Irlanda inteira seja menor que o estado de Santa Catarina). A infra-estrutura é excelente: há 15 mil hotéis e guest-houses georgianas e vitorianas só em Dublin. O turismo histórico nos remete a mil anos atrás, e existe uma área remodelada de bares e ruas de pedestres que não dorme, chamada Temple Bar. Ali se exercita o esporte nacional: o craic, que quer dizer great, ou “curtir a vida”. Bares com música irlandesa, galerias de arte, ateliês de pintura, boates, muita paquera na rua, o Temple Bar é a clássica região decadente que virou o point da moçada. Dos 1,5 milhão de moradores de Dublin, 40% têm menos de 25 anos.

Eu poderia ter detestado a Irlanda porque a recepção contrariou toda a fama de simpatia do povo. Na Imigração, o funcionário me disse que, se eu estava em busca da Guinness perfeita, deveria ir para a Nigéria (onde fica hoje a maior fábrica de cerveja Guinness do mundo, com um teor alcoólico de quase o dobro da produzida em Dublin). Além disso, jamais recebi visto tão mesquinho: disse que ficaria ali três dias, e foi exatamente o que o irlandês carimbou em meu passaporte. Seria um pecado se a Irlanda moderna estivesse abandonando sua tradição de hospitalidade. Hoje, sul-americanos e europeus do leste trocam seus países por essa terra que lutou tanto para ganhar autonomia e dar direitos à sua população católica. Crescendo a uma taxa de 5% ao ano, com apenas 4,3% de desemprego, Dublin atrai jovens sul-americanos e do Leste Europeu em busca de trabalho. Em cinco anos, chegaram para ficar 250 mil novos imigrantes. No hotel em que me hospedei, Ariel House, havia dois argentinos trabalhando.

A primeira impressão de hostilidade foi dissipada ao andar nas ruas comerciais de pedestre, como a Grafton Street, e jantar ostras saborosas no Éden, um restaurante no Temple Bar. No dia seguinte, descobri que o melhor em Dublin é se assumir turista, e comprar um passe de 24 horas e 12,5 euros para os ônibus de dois andares da City Tour ou Dublin Tour. Os guias contam a história da Irlanda com um humor menos sutil que o inglês e mais irreverente, como o do brasileiro. O palácio monumental de 1729, ex-sede do Parlamento e hoje Banco da Irlanda, não tem nenhuma janela porque, segundo o guia, “uma vez que o seu dinheiro entra lá nunca mais vê a luz do dia”. O tour dura uma hora e 15 minutos, mas o mais sábio é ir descendo nos pontos que se deseja visitar a fundo, e pegar o ônibus seguinte.

Há também excursões temáticas, como a do rock’n’ roll e a dos vampiros e fantasmas. Estes últimos, aliás, são levados a sério. Na TV irlandesa, um debate quase acadêmico sobre almas penadas mostrava que a atração pelo lúgubre existe de verdade até hoje.

Nessa Irlanda pra todos os gostos, prefiro os pubs e os museus às assombrações. O Brazen Head é o mais antigo, de 1198, e tem shows de música folclórica. O McDaids é a melhor versão de “pub literário” de Dublin, criado em 1779. Para os bebedores de uísque, há a Destilaria Old Jameson, em Smithfield Village. Ali, trava-se também uma guerra, contra o uísque escocês. Os irlandeses se proclamam inventores da bebida que chamam de “água da vida” (uisce beatha, em gaélico). Na destilaria, o passeio inclui degustação de uísque e um teste: seis turistas são convidados a escolher o mais saboroso e puro. Escoceses e ingleses saem derrotados, sempre, nesse jogo de copos marcados.

O museu literário em Parnell Square é uma preciosidade, e vale a pena pegar o áudio para aprender um pouco sobre a vida dos escritores irlandeses, ouvir a voz de alguns no original, e entender como muitos marginais se tornam gênios. Alguns fugiram da sociedade opressora e religiosa da Irlanda de outros tempos: James Joyce se auto-exilou aos 22 anos, o pintor Francis Bacon foi expulso da casa do pai por ser gay e se mandou para Londres e Berlim aos 16 anos. O museu de arte moderna também deve ser visto: é a adaptação do Hospital Real Kilmainham, do século 17, com uma arquitetura sóbria, uma capela e um pátio central. Duas bibliotecas permitem uma viagem no tempo: a do Trinity College, com 64 metros de comprimento e o Livro de Kells, manuscrito dos quatro evangelhos do século 8; e a National Library, com uma sala de leitura circular estupenda. As catedrais protestantes Christ Church e St. Patrick, dos séculos 11 e 12, restauradas no século 19, estão entre os passeios clássicos.

Pretendo voltar à Irlanda no verão para conhecer Cork, onde se produz a outra saborosa cerveja preta, Murphy’s; para passear nas vilas de pescadores com casas coloridas, pegando o trem rápido, o Dart, que sai de Dublin; e também olhar de cima das falésias, os Cliffs de Moher. Quem é obcecado por castelo deve ir ao de Malahide, do século 12, 17 quilômetros ao norte de Dublin. Quem gosta de festa não pode perder o St. Patrick’s Day (17 de março), celebrado com o tradicional pub crawl, a peregrinação etílica pelos pubs da cidade.

Você pode não gostar de cerveja nem de uísque e achar que o café da manhã local com salmão e porridge (mingau quente de aveia) está fora de cogitação. O sotaque irlandês (bus se fala “bôs”), que a mim parece charmoso, pode ser ininteligível para quem não está acostumado. Mas é difícil não estabelecer uma relação carinhosa com a Irlanda. Dublin não é nenhuma viagem de ação, aventura ou impacto estético. É a descoberta de uma ilha festeira, poética, guerreira e original.

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